Lúcia Xavier

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Lúcia Xavier é uma assistente social, intelectual e ativista de direitos humanos brasileira, coordenadora da ONG Criola.

Lúcia Maria Xavier de Castro nasceu em 1959. Perdeu o pai, radialista, aos dois anos, e sua mãe tornou-se trabalhadora doméstica para sustentar os filhos. Sua mãe tinha apenas duas folgas mensais, o que a levou a matricular os filhos em um colégio interno no bairro Lins de Vasconcelos, zona norte do Rio de Janeiro, onde Lúcia passou uma boa parte de sua infância. Mais tarde, uma conhecida ajudou sua mãe a encontrar emprego no comércio varejista, e família mudou-se para a Tijuca.

Lúcia começou a trabalhar aos 14 anos, na década de 1970, ainda no científico (atual ensino médio). Teve seus primeiros contatos com discussões politicas ao formar um grupo de estudos com outros alunos, com debates de textos de orientação marxista. O grupo se encerrou com a intervenção da diretora do colégio, que o proibiu, em razão do contexto de ditadura. Lúcia inicialmente pretendia cursar Direito, mas uma amiga mostrou-lhe um folheto que apresentava o curso de serviço social, e a grade curricular a empolgou, pois “eram matérias as mais variadas: filosofia, estatística, história”.

Na Faculdade de Serviço Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ (e, também, na Universidade Federal Fluminense – UFF/Campos, pois cursou alguns períodos naquela instituição), Lúcia construiu suas várias frentes de militância e ação político-profissional. Durante a graduação, trabalhou no comércio de artigos religiosos de matriz africana e realizou várias outras formas de trabalho remunerado, desde que lhe garantissem tempo para as aulas, estágios e outras atividades acadêmicas.

Ao mesmo tempo, Lúcia frequentava bailes Black Soul, que contribuíram na organização política dos jovens negros nos anos de 1970 e início de 1980. Através daquele movimento, passou a fazer parte de um grupo organizado de militantes na Cidade de Deus, favela da zona oeste da cidade do Rio de Janeiro, chamado “AcordaCriola”, que durou um curto período. Ao mesmo tempo, atuou no centro acadêmico de sua faculdade e apoiou a fundação do Partido dos Trabalhadores (PT). A seguir, passou a fazer parte do IPCN (Instituto de Pesquisa de Cultura Negra), onde se dedicou ao Núcleo Negro e ao Núcleo de Luta Comunitária.

Ainda universitária, foi aprovada em um concurso público específico para uma instituição de atendimento a menores e envolveu-se na defesa dos direitos das crianças e adolescentes. Além disso, as disciplinas de estágio supervisionado e de movimentos sociais contribuíram para sua intensa relação com o campo da militância e da luta por direitos. Uma de suas primeiras experiências de estágio foi realizada na Associação de Moradores da Rocinha, à época altamente combativa, e foi considerada por Lúcia como definidora de sua trajetória posterior.

Tendo participado também do Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua, fez parte, após sua formatura na UFRJ em 1984, dos debates e da construção do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), da Constituição Federal de 1988 e da Constituição do Estado do Rio de Janeiro. Em 1992, junto a Thereza Antônio de Castro, Guaraciara Matilde Werneck, Josina Maria da Cunha e Jurema Pinto Werneck, fundou Criola, ONG militante de projeção nacional e internacional que combate o racismo, o sexismo e a homofobia, por meio de ações de intervenção direta nos espaços públicos democráticos, de mobilização comunitária, de estudos e pesquisas e no campo internacional e nacional dos direitos humanos e do feminismo negro.

De 1991 a 1997, Lúcia Xavier dedicou-se à função de assessora parlamentar na Assembleia Legislativa do Estadodo Rio de Janeiro (ALERJ), com enfoque na área de movimentos sociais, tendo sido uma das assistentes sociais pioneiras na experiência de assessoria parlamentar. Participou da organização do Disque Defesa Homossexual (DDH), serviço inaugurado de forma inovadora no país em 1999 ao propor atendimento público a pessoas LGBT vítimas de discriminação.

Tornou-se uma das organizadoras do processo de preparação da III Conferência Mundial de Combate ao Racismo, à Xenofobia e Intolerâncias Correlatas, da Organização das Nações Unidas (ONU), ocorrida em Durban, África do Sul, em 2001, e foi revisora da Declaração de Durban e de seu Plano de Ação.

Sua produção textual iniciou-se em 1991, tendo por foco homens e mulheres negros trabalhadores, crianças e adolescentes negros e pauperizados, e temáticas relativas ao HIV/Aids.

Lúcia tomou posse no cargo de Subsecretária Adjunta de Defesa da Cidadania em 2002 e teve uma gestão de cerca de oito meses, durante a qual procurou contribuir com uma visão da política de segurança pública. Em 2003, trabalhou também na relatoria da seção “O direito à saúde” do projeto DESCH (Plataforma Brasileira de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais) da ONU.

Ainda, atuou como técnica da Gerência Estadual de DST/Aids, Sangue e Hemoderivados da Saúde da Secretaria de Estado de Saúde (SES-RJ), bem como no Conselho Estadual da Criança e do Adolescente e no Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial, representando a Articulação de ONGs de Mulheres Negras Brasileiras/AMNB.

No decorrer da trajetória de Lúcia, suas atividades socioeducativas se desdobraram em muitos processos de qualificação de gestores e trabalhadores dos mais variados órgãos públicos e privados, em especial para as questões relacionadas ao racismo em suas diversas expressões, à discriminação de gênero, à LGBTfobia e ao HIV/Aids. Também participa da avaliação e seleção de projetos de intervenção, orientando a formação de quem inicia sua trajetória nessas áreas.

Atualmente, permanece como uma das coordenadoras gerais da ONG Criola. Também é conselheira do Global Fund for Women e membro da Comissão de Seleção de Projetos do Fundo Elas, dedicado ao apoio a projetos sociais que tomem como questão central o fortalecimento das mulheres. Além disso, é pesquisadora sênior do projeto Cartas do Cárcere e escreve artigos para o site Blogueiras Negras, assim como diversas outras publicações.

Recebeu a Medalha do Reconhecimento Chiquinha Gonzaga conferida pela Câmara Municipal do Rio de Janeiro.

Fonte: "Lúcia Xavier: uma “pegada” radical contra as violações de direitos". Joilson Santana Marques Junior. Revista da Faculdade de Serviço Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, segundo semestre de 2015, número 36, volume 13, p. 333-345.


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