Sem Rumo (livro)

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Sem Rumo [1] [2] é um romance de Cyro Martins [3] [4] , que integra a chamada trilogia do gaúcho a pé [5] [6] [7], ao lado de Porteira Fechada e Estrada Nova [8] [9], formando um painel progressivo sobre a vida campeira no pampa gaúcho, o que as torna histórias altamente imbricadas entre si e, via de regra, estudadas em conjunto pela sua relevância, quer seja no ensino médio, quer seja nos Cursos de Graduação em Letras ou História. A obra foi publicada em 1937, inserindo-se numa tradição literária que caracteriza a Segunda Fase do Modernismo, o Neorealismo [10] [11] [12], voltada para a denúncia das condições socioeconômicas adversas do homem trabalhador, particularmente, das áreas rurais [13], espaço preponderante na narrativa desde o parágrafo inicial: "O xergão, a carona, o lombilho, a cincha, e num upa esteve encilhado o pingo. Chiru puxou o burrilho direito ao cabeçalho, que ambos conheciam demais e aborreciam com a mesma submissão". [14] No Rio Grande do Sul, esse viés literário [15] [16] [17] [18] foi adotado, entre outros autores, por Pedro Wayne, no romance Xarqueada, por Aureliano de Figueiredo Pinto, em Memórias do Coronel Falcão, assim como Dyonélio Machado que, em Os Ratos, denuncia a degradação humana ante o capital, tendo o espaço citadino como foco primordial. Pode-se ainda ponderar que Cyro Martins dialoga, pelo espaço e pelos personagens que elege para as suas narrativas, com outros autores como Alcides Maya e Darcy Azambuja,numa linhagem de autores que segue o caminho contrário à mitificação do gaúcho que aparecera no romance O Gaúcho, de José de Alencar, de acordo com os pressupostos românticos, e que encontrou eco na literatura gaúcha em O Vaqueano, de Apolinário Porto Alegre, Os farrapos, de Oliveira Belo, e especialmente em Contos Gauchescos, de João Simões Lopes Neto [19] [20].

Sobre a obra[editar]

A personagem principal de Sem Rumo é Chiru [21] (falta-lhe pois o prenome que lhe daria identidade) e a história abrange desde a sua infância - um "piazito" que conduz o leitor pelos campos, pelos galpões, pela faina estancieira, ou seja pelo cotidiano das atividades -, tendo sido criado na Fazenda do Silêncio, como afilhado do fazendeiro (Nicanor Ayres), enfrentando as adversidades e a violência impostas pelo capataz (Clarimundo) - um indivíduo alto, delgado, com a adaga à cinta -, ao ponto que decide fugir, mesmo que as horas passadas ao pé de dona Ursulina concedessem-lhe a ternura que não encontrava nos galpões. Aos poucos, a lida bruta com o gado, ofertou-lhe coragem e vigor físico para a fuga: "Quando se virou para trás, a casa da família, os galpões, o arvoredo, as mangueiras, formavam um vulto só, escuro". [22]

Chiru esperava, a partir dali, assenhorar-se de sua própria vida, transferiu-se para a cidade, perambulando por diferentes atividades, sem qualificação alguma para exercê-las. Casou-se; Alzira, a esposa, deu-lhe um filho. O texto evidencia as transformações históricas [23] [24] que se operam na sociedade de então e a incapacidade do gaúcho para adaptar-se ao novo modelo que se apresentava, sentindo-se alijado do ponto de vista social e econômico,[25]Chiru chega à prisão.

Sem Rumo [26], dividida em 27 capítulos, é uma das obras de referência da literatura produzida no Rio Grande do Sul no tocante à representação do processo de expulsão do homem do campo, num tempo marcado pelo êxodo rural, pela hegemonia do Partido Republicano Rio-Grandense e de Borges de Medeiros, o presidente da Província [27] [28], apontando ainda a paulatina inserção das ideias da República Nova, que se consolidariam com a ascensão de Getúlio Vargas ao poder [29]. A situação sócio-política ganha contornos relevantes porque os poderosos do local procuram influenciar diretamente a decisão de voto de Chiru, o protagonista da narrativa, [30] [31] - e de quem mais puderem - havendo, no episódio do médico que visita a casa de Chiru para atender o menino doente, uma discussão e a aprovação das benesses que ele entrega à sociedade no exercício da sua profissão, cacifando-o para um cargo político.

A crítica literária, que tem se dedicado ao estudo da obra, aponta a existência da figura do gaúcho a pé [32], como aquele gaúcho que se afasta dos seus costumes tradicionais [33] – incluindo o seu apego ao cavalo, que lhe valeu a denominação mítica de “centauro dos pampas”, uma vez que, na cidade, Chiru não encontra trabalho exatamente porque se acostumara às lides campeiras e não fora preparado para outras atividades.[34] [35] O tempo passado - da infância na estância - e o tempo presente - do subemprego e da miséria - entram em contato, numa narrativa não-linear - expressando-se no tempo do meio campesino, ainda que adverso, representado pelo espaço em que o menino/jovem Chiru estava acostumado e sabia administrar as adversidades dali decorrentes, e o tempo do meio urbano, um espaço que se mostra ainda mais repleto de infortúnios na trajetória da personagem. [36]

Referências

  1. HOHLFELDT, Antonio. "Sem rumo: 70 anos depois". http://www.celpcyro.org.br/joomla/index.php?option=com_content&view=article&Itemid=0&id=693 27 de janeiro de 2019.
  2. BERND, Zilá. O gaúcho a pé: estudo do romance social de Cyro Martins. Porto Alegre, 1977. Dissertação (Mestrado) – Porto Alegre: Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 1977.
  3. CESAR, Guilhermino. "Um escritor (Cyro Martins)". IN: CARVALHAL, Tania Franco.  Notícia do Rio Grande: literatura/Guilhermino Cesar. Porto Alegre : Ed. da UFRGS, 1994.
  4. PÁGINA DO GAÚCHO. "Cyro Martins". Jornal da Câmara Riograndense do Livro. [1]27 de janeiro de 2019
  5. MACHADO, Juremir. "Nós, os gaúchos a pé". Homenagem aos 80 anos de Sem Rumo. [2] 27 de janeiro de 2019.
  6. DUARTE, Márcia Lopes. "Simões Lopes Neto e a invenção do gaúcho". http://www.ihu.unisinos.br/images/stories/cadernos/ideias/008cadernosihuideias.pdf 27 de janeiro de 2019.
  7. RIZZATO, Elizabeth Pires. O gaúcho a pé - um processo de desmitificação. Porto Alegre, Movimento/FISC, 1985.
  8. Martins, Lucelia Rodrigues (29 de julho de 2004). «A Sátira: uma estrada nova na obra de Cyro Martins.». Dissertação (Mestrado em Letras). Programa de Pós-graduação em Letras. Universidade Federal de Santa Maria, 2004. 
  9. KETZER, Solange Medina. A narrativa mítica de Cyro Martins: uma história em trilogia. 1991, 174 p. Dissertação (Mestrado em Letras). Pontifícia Universidade Católica. PUCRS, 1991.
  10. BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira.  32.ed.   São Paulo : Cultrix, 1994.
  11. DACANAL, José Hildebrando. O romance de 30. 2. ed. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1986.
  12. FISCHER, Luis Augusto. "Alguns custos da radicalidade: o romance modernista". IN: DACANAL, J.H. (org.). O romance modernista: tradição literária e contexto histórico. Porto Alegre: Ed. da UFRGS, 1990.
  13. APPEL, Carlos Jorge. "As coxilhas sem monarca". Cyro Martins. 7.ed. Porto Alegre: Instituto Estadual do Livro, 1997.
  14. MARTINS, Cyro. "Sem Rumo". 2.ed. Porto Alegre: Movimento, 1977.
  15. HOHLFELDT, Antonio. Literatura e vida social. 2.ed. Porto Alegre : Ed. da UFRGS, 1998.
  16. CESAR, Guilhermino. História da Literatura do Rio Grande do Sul. Rio de Janeiro: Editora Globo, 1956.
  17. ZILBERMAN, Regina. A Literatura no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1992.
  18. Marobin, Luiz. A literatura no Rio Grande do Sul - Aspectos temáticos e estéticos. Porto Alegre, Martins Livreiro Editor, 1985.
  19. ZILBERMAN, Regina. Literatura gaúcha: temas e figuras da ficção e poesia do Rio Grande do Sul.  Porto Alegre : L&PM, 1985.
  20. GOLIN, Tau. A tradicionalidade na cultura e na história do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Tchê, 1989.
  21. GARCIA, Carlos. "Cinco representações do gaúcho na literatura". Porto Alegre: Revista Culturíssima on line, 2015. Disponível em http://culturissima.com.br/colunistas/cinco-representacoes-do-gaucho-na-literatura/ 28 de janeiro de 2019.
  22. MARTINS, Cyro. Sem Rumo. 2.ed. Porto Alegre: Ed. Movimento, 1977. p. 69.
  23. PESAVENTO, Sandra Jatahy. História do Rio Grande do Sul. 3.ed. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1984.
  24. BARBOSA, Fidelis Dalcin. História do Rio Grande do Sul. 4.ed. Passo Fundo: Projeto Passo Fundo, 2013.
  25. KISCHENER, Manoel Adir; BATISTELA, Everton Marcos. "Sem Rumo de Cyro Martins: Modernização e exclusão a partir das transformações na sociedade gaúcha." IN: VIII Congresso Internacional de História. 2017. Maringá/PR. Anais. Maringá/PR: Universidade Estadual de Maringá (UEM), 2017.1229-1237p. [3] 27 de janeiro de 2019.
  26. ZILLES, Urbano. “Gratidão de ser”. Porto Alegre: EdPUCRS, 1993.
  27. QUEVEDO, Júlio. História Compacta do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Martins Livreiro, 2003.
  28. FLORES, Moacyr. História do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Nova Dimensão, 1996.
  29. LEMAIRE, Ria. "Discursos históricos e narrativa literária: cruzamentos e encontros intrigantes". IN: LEENHARDT, Jacques; PESAVENTO, Sandra Jatahy. Discurso histórico e narrativa literária. Campinas/SP: Ed. Unicamp, 1998.
  30. [CARDOSO, Caroline dos Santos. "Literatura e História na trilogia de Cyro Martins: a representação dos gaúchos e das prendas a pé", 2009, 46p. Monografia. Faculdade de Letras. Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, 2009.http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/graduacao/article/viewFile/6010/4328 27 de janeiro de 2019.
  31. SOARES, Alexandra Munareto. Literatura e História: narrativas de opressão e silêncio em Cyro Martins, 2009, 125 p. Dissertação. (Mestrado em Letras). Universidade de Santa Cruz, 2009.
  32. BERND, Zilah. "Síntese da dissertação o gaúcho a pé: romance social do autor gaúcho Cyro Martins" Porto Alegre: Organon, v. 15, n.15. Porto Alegre, 1986. [4] 27 de janeiro de 2019
  33. GOLIN, Tau. "Reflexos entre o gaúcho real e o inventado". IN: GONZAGA, Sergius; FISCHER, Luis Augusto. Nós, os gaúchos. Porto Alegre: Ed. UFRGS, 1992.
  34. WENDT, Wanessa Tag. "O pensamento político de Cyro Martins nas páginas da trilogia do gaúcho a pé (1937-1954): uma breve análise da obra Porteira Fechada." IN: XI Encontro Estadual de História, 2012. Anais. Rio Grande/RS: FURG, 2012. [5] 27 de janeiro de 2019.
  35. RANGEL, Carlos Roberto da Rosa, et al. "A campanha gaúcha na obra de Cyro Martins". Revista Mosaico, v.3, n.2, p.199-208, 2010. http://seer.pucgoias.edu.br/index.php/mosaico/article/viewFile/1855/1155] 27 de janeiro de 2019. Goiânia/GO: 2010.
  36. PIRES, Elize Huegel. A trilogia do gaúcho a pé, de Cyro Martins, na contemporaneidade : uma obra além do seu tempo. 2011, 100p. Dissertação (Mestrado em Letras). Faculdade de Letras. Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. PUCRS. Porto Alegre, 2011.


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